“A maior parte dos políticos, em Portugal, não serve o país”
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- Categoria: Política
- Publicado em quinta, 07 fevereiro 2013 15:53
- Escrito por Filipa Castro Reis
Construiu a sua carreira com pulso firme e aos 33 anos, António Meira já tinha uma empresa de distribuição que facturava, na altura, seis milhões de euros. Hoje é um empresário de êxito cuja multiplicidade faz com que os seus negócios cheguem a vários pontos do país e até atravessem a fronteira espanhola. Mas nem tudo “é cor de rosa”, com negócios que vão da Educação aos Mercados Financeiros, à Gestão Financeira, à Electrónica e ao Transporte de Doentes, António Meira mantém fiel a três defeitos que fazem dele o que é hoje: “trabalhar, trabalhar e trabalhar”.
Hoje é um empresário multifacetado com grande êxito, mas a vida custou-lhe…
Custou como custa a todos os homens multifacetados. Soube agarrar as oportunidades da vida e elas continuam a existir embora sejam mais difíceis de agarrar nos dias de hoje por força da situação em que se encontra o país. Quando as crises não são financeiras, as oportunidades podem não existir, mas há sempre a parte financeira que ajuda a concretizar essas oportunidades. Hoje, essa componente financeira não existe, por isso as oportunidades são mais difíceis, sendo que as que existem têm de ser concretizadas com capitais próprios.
Qual seria o caminho que indicaria ao país neste momento?
Há que procurar as oportunidades. Eu dedico grande parte do meu dia a fazer pesquisas e muitas vezes as oportunidades surgem nessas pesquisas ou surgem a partir do conhecimento que nós temos na sociedade. Foi o caso do último investimento que fiz com outras pessoas numa loja da Apple em Braga, no Centro Comercial Braga Parque. Um investimento na ordem dos 240 mil euros com capitais próprios e, volvidos cerca de oito meses, renovamos essa loja onde fizemos outro investimento de 130 mil euros.
Acha que esse investimento é um ato de loucura ou de confiança?
É um ato de confiança porque temos uma grande marca por detrás. Não acredito que tenhamos um grande país pela frente. O país somos nós que o fazemos, mas enquanto uns fazem, os outros desfazem. Mas a verdade é que mesmo tendo noção de como está o país, decidi levar o meu investimento em frente. Acho que até é um defeito meu e da minha mulher que é trabalhar, trabalhar e trabalhar. Não trabalhamos para deixar nenhuma fortuna aos nossos filhos, queremos sobretudo deixar-lhes educação e formação e se possível empresas que gerem liquidez. Infelizmente, não creio que o futuro seja muito promissor para a geração dos nossos filhos. Eu acho que a ideia está em criar produtos que não existam na sociedade.
As Escolas Lancaster King’s School “já vão com cerca de 1050 alunos”
É um homem com negócios em Vila Nova de Gaia, Proença-a-Nova, Penafiel, Vizela, Aveiro, Guimarães, Santa Maria da Feira, Estarreja e também em Espanha. Como é que consegue manter vivos estes negócios que vão da Educação aos Mercados Financeiros, à Gestão Financeira, à Electrónica e ao Transporte de Doentes?
É difícil, exige muito de nós. Implica muitos feriados, sábados e domingos de trabalho e às vezes pela noite dentro. Mesmo quando chegamos a nossa casa, continuamos a trabalhar até à hora que nos deitamos. Nem tudo é cor de rosa, porque às vezes temos fatores externos às empresas que prejudicam o seu crescimento. Temos o caso do Transporte de Doentes que o Ministério da Saúde está sempre a deitar abaixo através dos cortes.
Mas a educação é uma grande aposta, não é verdade?
É. Comprei quatro escolas da Lancaster College em 2009. Em fevereiro de 2010, propuseram-me a compra de outra escola e entretanto, já era meu objetivo criar a nossa própria marca, a Lancaster King’s School, e expandi-la. Desde essa altura até à atualidade, já criámos mais quatro escolas.
Mas hoje não há dificuldade em conseguir alunos?
Não. Nós fizemos um ligeiro decréscimo no valor da inscrição e a procura de alunos continua a aumentar devido à emigração e também porque os pais querem dar formação aos filhos. Hoje é importante aprender-se uma língua, nomeadamente o inglês que representa cerca de 80 por cento do ensino das nossas escolas que vão com cerca de 1050 alunos. A nossa marca também tem cada vez mais visibilidade porque sou uma pessoa que aposta no marketing.
“A medida mais importante neste país é controlar a economia paralela”
Perante a situação vivida hoje em Portugal, acha que as medidas aplicadas são as mais corretas?
Eu optaria por outras. Acho quem tem faltado competência aos governantes da última década. É fácil governar com o dinheiro dos outros, difícil é arranjar ideias diferentes e inovadoras porque o Governo prega o empreendedorismo, mas chega a hora e faz rigorosamente o contrário. Na minha opinião, este Governo tem a sua estratégia e a sua agenda. Está a tomar as medidas mais difíceis no princípio da legislatura e vão tomar as mais fáceis no fim, como qualquer outro Governo faz. Para mim, haveria outras medidas a tomar que não aumentar os impostos. A medida mais importante neste país é controlar a economia paralela que já se fala que está em 35% do PIB. Uma forma de controlar a economia paralela prende-se com o facto de todos os estabelecimentos entregarem uma fatura ao cliente. Porque é que não se tomou essa medida há dez anos atrás? Era uma medida que teria corrigido por si só o défice orçamental e o défice público. Não se vai corrigir défice nenhum com o aumento dos impostos. Só há uma forma de corrigirmos isto: todas as empresas que contribuem para o PIB e que estão legais serem obrigadas a emitir a faturação real. As empresas que não estão legais, cabe ao próprio Ministério da Justiça dissolve-las.
Quando é que agarrou a sério o primeiro emprego?
Somos sete irmãos, todos estudamos na década de 70 e hoje admiro bastante o meu pai porque nessa altura ter sete filhos a estudar era complicado. Foi nessa década que me dediquei um pouco à política, mas rapidamente apercebi-me que não era o caminho que eu deveria tomar e desisti dela após a morte de Sá Carneiro. Nunca trabalhei por conta de outrem, trabalhei com o meu pai, tirei o Bacharelato de Contabilidade, em 1995 fiz a licenciatura e mais tarde fiz uma licenciatura em Gestão e Finanças e agora falta-me a terceira apresentação da minha tese de mestrado em Gestão e Finanças também. Em 1982- 1983, eu criei o meu escritório de contabilidade em nome individual e só em 2000 passou a sociedade. A minha ideia foi sempre a expansão, aos 33 anos já tinha uma empresa de distribuição que faturava, na altura, seis milhões de euros. Em 1993, batem-me à porta para eu encabeçar a lista do CDS à Junta de Freguesia de Arcozelo. Aceitei o repto do Manuel Clemente Quintas e do Abel Guedes mas com determinadas condições. Queria fazer uma campanha decente que tinha o slogan “Não Somos Políticos, Somos Gestores” e conseguimos duplicar a votação das eleições anteriores, mas depois houve umas confusões e abandonei a política precisamente na tomada de posse da Junta até hoje. Podia ter sucesso na política, mas enveredei mais pela parte empresarial e senti-me desiludido porque gastei dinheiro do meu bolso na campanha eleitoral.
Daí a dificuldade para alguns cidadãos em entrarem para a política. Há o entrave dos custos.
A política só vive para os partidos, isso é notório. Não sou candidato a mais nenhum cargo político, sou, sim candidato a ter mais uma empresa, a dar mais estágios no meu escritório e a dar mais emprego, embora esteja um pouco contra as leis laborais que já deviam estar corrigidas há muitos anos.
Mas pegando no seu slogan, uma das acusações que se fazem nos últimos anos aos políticos que nos governam é que os Governos são demasiado tecnocratas. Não existem políticos no Governo e daí a situação do país. Concorda?
Eu acho que políticos há muitos e o problema está naquilo que envolve a política. Criam-se empresas para os políticos, criam-se bancos para os políticos e isso dá mau resultado. Os Governos, se calhar, vão ter que ser mais tecnocratas porque os políticos não conseguiram controlar a economia do país. Não estou a generalizar, em todos os países, incluindo Portugal, há bons políticos, mas a maior parte, na minha opinião, não serve o país. Se há empresas que inovam, se há pessoas que inovam, os Governos não inovam nada sejam eles quais forem. Porque é que o Governo não reduz o Rendimento de Inserção Social, não reduz o desemprego e coloca essas pessoas a trabalhar nas empresas? Devia fazer parcerias com a sociedade empresarial. Em Portugal, foi sempre difícil mexer nas leis laborais.
“É necessário dar um impulso ao interior do concelho”
Como é que vê Vila Nova de Gaia hoje e como a verá amanhã?
Hoje vejo Vila Nova de Gaia melhor do que há dez, vinte anos atrás, mas acho que é necessário dar um impulso ao interior do concelho. Quanto ao futuro, encaro-o com alguma apreensão porque acredito que a paisagem urbanística vai degradar-se face ao problema financeiro-económico do país.
Luís Filipe Menezes faz bem em ir até ao Porto?
Ele é que sabe. Eu não indico candidato a ninguém e o Porto é que sabe se o deve eleger ou não.
Vamos ver António Meira empenhado numa candidatura ao seu concelho?
Não. Se for uma candidatura independente, não sou capaz de ingressar na lista, mas sou capaz de trabalhar para ela. Uma candidatura de partidos, não.
