PSD Gaia entre o céu e o abismo
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- Categoria: Política
- Publicado em quarta, 23 janeiro 2013 08:43
- Escrito por Redação
O candidato do PSD à Câmara Municipal de Gaia deve ser anunciado brevemente. Depois de Luís Filipe Menezes ter apregoado Marco António Costa durante um ano e meio como seu sucessor, o apelo do sentido de Estado e as funções governativas falaram mais alto e a corrida ao lugar assumiu contornos que indiciam lutas internas perigosas e ameaçam fraturar a coesão da atual maioria municipal. Numa corrida, para já a dois, entre José Guilherme Aguiar, e Firmino Pereira, há apenas uma certeza: na ausência de uma escolha credível, o PSD, por demérito, corre o risco de perder para o PS.
O “afastamento” de Marco António Costa da candidatura do PSD à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia parece ter instaurado o caos no seio da concelhia social-democrata gaiense. Após um ano e meio de ‘campanha’ de Luís Filipe Menezes por aquele que foi o seu número dois esta decisão poderá ter originado a desilusão, na medida em que é necessário arranjar outro candidato e as escolhas são muito escassas.
Ao que o AUDIÊNCIA conseguiu apurar, a principal razão da recusa de Marco António Costa terá sido um apelo para permanecer no Governo devido ao seu bom desempenho, por parte dos agentes da solidariedade social, mas não só. Durante a sua intervenção no plenário realizado no passado dia 14, para definir o perfil do candidato social-democrata à autarquia gaiense, Marco António Costa disse que esta foi uma decisão pessoal, apelou à compreensão de todos na medida em que, revelou, gosta de decidir pela sua própria cabeça e não que os outros decidam por si, e mostrou-se recetivo para Gaia, disponível para um bom combate ao lado do candidato que o PSD escolhesse. Antes de se ausentar do plenário, o Secretário de Estado da Segurança Social disse ainda que levava todos os militantes no coração, mesmo aqueles com quem tinha tido divergências, o que desde logo foi interpretado como uma alusão à recente aproximação a Cancela Moura, que também esteve presente na reunião.
Discordando de Marco António Costa, Menezes retorquiu dizendo que só levava 90%, porque houve 10% desses militantes “e alguns deles estão aqui nesta sala, que tiveram que ser combatidos para que fosse possível cimentar o projeto de 16 anos”. Fonte próxima da comissão política concelhia social-democrata adiantou que esta terá sido uma alusão direta a Cancela Moura, único adversário interno de Menezes e que o atual presidente da Câmara de Gaia foi mais longe, afirmando mesmo que levar todos os militantes no coração seria uma atitude de hipocrisia com a qual não podia pactuar.
Assim, apesar da diplomacia das palavras e de ter endereçado elogios “ao melhor Secretário de Estado deste Governo”, ficou a ideia de um clima de tensão entre Luís Filipe Menezes e Marco António Costa, fruto de um inesperado contratempo no processo de escolha do candidato do PSD à Câmara de Gaia.
Apelo à união
O AUDIÊNCIA sabe que, à margem desta divergência velada, e no meio de um clima de apelo à coesão interna, houve uma intervenção que não passou despercebida e terá mesmo surpreendido. Sem deixar de retribuir a ‘farpa’ de Luís Filipe Menezes, Cancela Moura fez questão de se dizer orgulhoso do seu trajeto político e sentir-se peça efetiva e integrante do ciclo que agora se encerra, com referência expressa às várias funções que desempenhou no “consulado” de Menezes, nomeadamente o facto de ter sido mandatário, vereador e presidente da concelhia. No entanto, fazendo questão de recordar que é militante do PSD desde 1981 também não deixou de se orgulhar de militar num partido que sempre lhe garantiu a liberdade de ter a sua própria opinião, pensar pela sua própria cabeça e não estar subjugado ou alinhado com a posição de ninguém, para fazer um repto à concelhia, que terá a responsabilidade de decidir sobre a escolha do candidato.
Numa tentativa de antecipar divergências, a mesma fonte adiantou que Cancela Moura terá afirmado não querer ficar refém de escolhas erradas, defendendo ser importante combater para o exterior a ideia de que o candidato escolhido fosse uma segunda escolha e apelando ao sentido de responsabilidade e à união do partido numa decisão assertiva, no sentido de evitar uma fratura interna. Ciente da importância do veredito, o jurista terá ainda valorizado esta adversidade como uma janela de oportunidade para se construir uma unidade séria em torno de uma candidatura e avisou a Concelhia gaiense para “não chorar sobre o leite derramado” caso o partido venha a decidir de forma errada.
Se é certo que esta intervenção de Cancela Moura se pode contextualizar na legítima preocupação de salvaguardar a coesão partidária, alguns dos presentes, lembrando das ruturas que este militante já fez ao longo do seu percurso político, interpretaram estas palavras como uma porta aberta a uma eventual candidatura, caso a escolha não seja convincente e mobilizadora. Sem direito a surpresas porque o aviso foi deixado.
A reunião correu num clima de grande expectativa, e o silêncio é a palavra de ordem no interior do PSD. Com uma estrutura descaracterizada pela forte personalização da liderança do município, as referências são muito difíceis de encontrar, mas a inesperada recusa de Marco António Costa parece ameaçar pulverizar o número de candidatos que pretendem ocupar o lugar. Parece que José Guilherme Aguiar, pelo perfil traçado, terá a dianteira, mas ainda terá por explicar a falta de confiança política do PSD de Matosinhos, em face do acordo político que mantém com Guilherme Pinto, para garantir a maioria do PS no executivo municipal. Firmino Pereira, que alguns também apontam para integrar a lista de Menezes ao Porto, como forma de resolver problemas na constituição da lista de Gaia, também quer e já ameaçou que se não for escolhido concorrerá como independente. Manuel Moreira tanto foi hipótese, como logo “desapareceu”, com o anúncio da sua recandidatura ao Marco de Canaveses e de Cancela Moura pode esperar-se tudo.
Cancela Moura contatado para comentar remeteu-se ao silêncio. E dos putativos candidatos, o único com quem o AUDIÊNCIA conseguiu falar foi Firmino Pereira. Apesar de não ter estado presente, o vice-presidente da Câmara Municipal de Gaia admitiu que o “plenário correu muito bem e o perfil do candidato do PSD à Câmara foi aprovado por unanimidade, o que demonstra que o partido está coeso”. Sem querer dar a conhecer a sua posição sobre o assunto apenas adiantou que “o Firmino Pereira neste momento está numa altura de ponderação, de reflexão e com muito sentido de responsabilidade”, apelando a todos os que têm poder de decisão para que o façam, também, “com sentido de responsabilidade”. “Aguardo serenamente por essa decisão”, concluiu.
PS: Conflitos estão a prejudicar o município
Eduardo Vítor Rodrigues deu a perspetiva do PS no que respeita às movimentações do PSD para encontrar o candidato à Câmara Municipal de Gaia.
Para nós é irrelevante. O que nós não queremos é que esse conjunto de conflitos que se percebe que existem no PSD prejudique o trabalho da Câmara Municipal de Gaia, e eu acho que está a prejudicar porque tem posto os vereadores muito concentrados na lógica da sucessão ao Dr. Menezes, prejudicando com isso o trabalho da autarquia. Acho que é extemporânea toda esta confusão e ficou provado aquilo que nós tínhamos dito que era que o município gaiense é uma segunda opção para muita gente.
Está na hora de VNG ser levada a sério, como um desafio único?
Claro que sim, até porque os problemas que hoje Gaia tem são problemas muito sérios. É verdade que o Dr. Menezes empreendeu um conjunto de mudanças muito importantes, sobretudo ao nível das infraestruturas, mas também é verdade que hoje as pessoas estão com processos muito sérios de exclusão, de desemprego e, em Gaia, a afetar muito particularmente os jovens. Portanto, acho que há necessidade de uma postura diferente, de políticos locais com uma grande vontade de servir a comunidade e não de usarem o concelho para outros voos, que é isso que muitas vezes acontece, infelizmente.
É importante que esta ‘poeira assente’ e as pessoas se dediquem a este mandato que ainda não terminou?
Claro. Ainda temos muitos meses pela frente e os próprios vereadores do PS, apesar do contexto de campanha, estão empenhados em continuar a trabalhar no município. Acho que tudo o que servir para não distrair e concentrar as pessoas é ótimo.
