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“A Ribeira Grande está-se a transformar-se e temos todo o interesse em voltar com a Paparoca”

Ribeiragrandense de gema, José Rodrigues Pereira é um homem preocupado não só com o seu concelho mas também com o desenvolvimento do mesmo. Por isso mesmo, e com o empreendedorismo a correr-lhe nas veias, o empresário pretende abrir, brevemente, mais um Paparoca, precisamente, na Ribeira Grande. Fique a conhecer ao pormenor José Rodrigues Pereira nesta entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA RIBEIRA GRANDE.




Fale-nos um pouco de si.
Nasci em 1954, na Ribeira Grande, na freguesia da Conceição. Foi uma década maravilhosa e que proporcionou homens com uma qualidade fantástica. Por exemplo, o Herman José nasceu em 54, e tem sido um potencial no meio artístico e não só. Mas cá também tenho amigos como o Dr. Paulo Sampaio, o José Manuel Lima e o Evaristo Lima na Ribeira Grande, um poeta que já escreveu vários livros, José Carlos Paiva Tavares de Melo, que foi meu colega, e por aí fora, tudo gente da década de 50.

Os seus pais que atividade tinham?
O meu pai, Duarte Manuel Rodrigues Pereira, era empresário de mercearias, de quinquilharias e jogos. Foi ele que introduziu na Ribeira Grande uma coisa maravilhosa que se chama bilhares, não snooker, e ensinou a malta a jogar. Além disso, a mercearia, hoje costumo dizer que era mais que um hipermercado, e geralmente as pessoas questionam-se. Mas nas mercearias, antigamente, existiam coisas que hoje nos hipermercados não existem, e existia tudo e mais alguma que hoje existe nos hipermercados. Por exemplo, naquele tempo as pessoas usavam garrafas para ir buscar o óleo, o azeite, o petróleo, os vinhos e tudo mais. A garrafa de vidro era um bem precioso na casa das pessoas, não se devia partir porque era difícil arranjar outra. Depois, todos os produtos eram vendidos avulso, fosse macarrão, macarronete, açúcar, farinha, a açafroa, o colorau, e as ervas aromáticas, era tudo em embrulho. Até a marmelada era vendida à fatia e aos quadrados, conforme as gramas que a pessoa tinha necessidade. Além disso, as mercearias tinham coisas fabulosas, tinham tintas para os capachos e as capacheiras para por à entrada das portas e que eram feitas com folha de milho e depois pintadas. Depois também tinha uma coisa interessantíssima, tinha anilinas para fazer licores, tinta moída, relógios, dedais, agulhas, linhas, bonés, chapéus, roupa interior para os lavradores – aquelas camisas grandes brancas fortes e as ceroulas. Isso tudo são coisas que os hipermercados não têm. Depois também tinha secção de ferragens com as dobradiças, os fechos das portas, tinha vinho avulso que vinha em barricas grandes do Continente, e vendia-se ao litro. O meu pai era filho de um alfaiate, que era o meu avô Duarte, e tinha esse espaço em frente à Igreja da Conceição, que hoje é a Merenda, que abri com os meus irmãos. Hoje é do meu irmão e tenho um orgulho muito grande em que tenha ficado na família.

E a sua mãe?
A minha mãe, Maria Urânia Borges Pereira, além de estar viva, tem hoje 95 anos, é uma pessoa que me emociono sempre que falo dela. É uma senhora que casou tarde e ficou viúva muito cedo, aos 43 anos - o meu pai morreu com 49 - e num casamento de 13 anos teve 11 filhos, neste momento ainda tem 8. A minha mãe ficou com a vida do meu pai, ficou com os oito filhos, a mais velha tinha 12 anos e eu tinha 11, o meu irmão que tem a Merenda na Ribeira Grande tinha 6 meses. E a minha mãe conseguiu dar estudos aos filhos, só não estudou quem não quis, transmitiu-nos valores excecionais como dizer aos mais velhos “podes não andar com cuecas ou peúgas que ninguém vê, mas o dinheiro das cuecas ou peúgas já serve para pagar a quem deves”. Era um dos valores inestimáveis da minha mãe que, além de ter feito o que fez durante todo o seu percurso, aguentou a vida do meu pai e fez um percurso de maneira a que todos os filhos e ela andassem de cabeça erguida, em que ninguém fizesse nenhum reparo por causa de dívidas, e hoje é um enorme orgulho porque foi mãe, pai e empresária.

A escola primária como foi?
A escola primaria foi muito engraçada foi nos Fóruns, na rua onde ainda hoje mora a minha mãe, que é a Rua de São Sebastião. Fiz a escola primária na altura em que aquelas instalações foram inauguradas, e agradeço a todos os professores que deram boa conta dos alunos que lá estiveram, porque todos eles vingaram na vida. Todos eles sabiam fazer contas, sabíamos a tabuada, que hoje não se sabe, sabíamos escrever e ler, e saiamos dali prontos a fazer a transição para o liceu. Não era um aluno de Bom nem de Bom Mais, mas também não era mau aluno. Gostava muito de brincar, jogar futebol, e ginástica.

E o liceu?
O liceu foi em Ponta Delgada. Começou primeiro no Externato Ribeiragrandense, uma escola excecional, com muito bons alunos, e depois vim para Ponta Delgada, para a Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada. Tirei o curso geral de Administração e Comércio nas instalações que hoje existem da Escola Domingos Rebelo.

Mas a morte do seu pai teve, obrigatoriamente, que mexer na família…
Claro, mexeu na estrutura familiar, mexeu na orientação que existe sempre de pai para filhos. Deixei de ter uma referência, deixei de ter os valores que tinha na altura, e foi preciso a minha mãe nos chamar sempre a atenção para estes valores, nunca deixou nem descansou para transmitir sempre os valores que o meu pai tinha. Mas as coisas acontecem, é o deslumbramento de não ter um progenitor que oriente e puxe as rédeas a um jovem que está a começar praticamente a adolescência. Perdi um ano, repeti e passei, depois vim para Ponta Delgada, outro deslumbramento, meteu-se pelo meio o futebol, fui jogar na célebre equipa Benfica Águia Sport, fui dos pioneiros como jogador a abrir os juniores no clube, joguei lá durante muitos anos, transitei para os seniores, e claro, Ponta Delgada, sem ter as rédeas de pai, as da mãe eram relativamente curtas, uns namoricos pelo meio, o futebol, o desporto, porque também entrei para uma classe especial de ginástica porque sempre gostei muito.

Entretanto, veio o serviço militar.
Sim. Eu tinha sido, naquela altura, operado ao menisco e acontece na altura do 25 de Abril, ainda fui para as forças armadas, deram-me como apto, deram-me a farda fui para o comando no forte de S. Brás onde estive ainda algum tempo. Depois fui visto por um cirurgião e como tinha acontecido o 25 de Abril, acabou por me por na reserva.  

E a vida profissional quando começou?
A vida profissional começou quando acabei por tirar o curso de Administração e Comércio e a minha mãe precisava que a ajudássemos. Eu já ajudava na minha adolescência porque tínhamos distribuição de tabaco, tínhamos os bilhares para tomar conta que estavam na biblioteca da Ribeira Grande, e além disso era preciso à noite estar a tomar conta para não pagar a um empregado. Ou seja, estudava e trabalhava. Depois corríamos as freguesias todas no verão quando havia as festas porque tínhamos matraquilhos. E a minha adolescência foi essa. Concorri para a escola preparatória da Ribeira Grande, como escriturário, fui admitido e estive lá seis anos, cheguei a ser terceiro escriturário. Concorri depois para o Banco Comercial dos Açores, fiquei em 3º lugar em 27 elementos que concorreram, não fui chamado logo mas quatro ou cinco meses depois fui chamado e fui bancário entre 81 e 92, mas, na mesma altura, quando entrei para o banco, abri a Merenda. Fui recuperar aquele edifício emblemático em frente à Igreja da Conceição que estava arrendado a um fotógrafo. Paguei-lhe uma indeminização pelas benfeitorias que tinha lá feito e abri a Merenda. Nessa altura, estávamos os irmãos todos juntos, tivemos uma pastelaria, tivemos distribuição, depois cada um quis ficar independente e passado algum tempo eu abri, na mesma rua, a Paparoca, onde hoje existe a Primavera.

E hoje, o seu mundo empresarial engloba o quê?
A Paparoca, com várias lojas, o Frango da Guia, os bares do Hospital Divino Espírito Santo, e também fornecemos comida para uma creche e ATLs e ainda temos um acordo com a Câmara Municipal de Ponta Delgada para servirmos a zona de Manaias onde vai almoçar parte dos repatriados dos EUA, Canadá, etc. Temos também entregas ao domicilio de refeições prontas, como pizzas, hambúrgueres, frango da guia, sushi, kebab, tudo isso. Vendemos também muita sopa, as nossas sopas são realmente muito boas.



“Temos vindo a assistir a um boom que tem sido bom para todos”

Como estamos em termos empresariais neste momento, com a liberalização do espaço aéreo e o aumento de turistas. Isso tem animado o negócio?
Eu acho que costuma dizer-se nos termos empresariais que o mercado adapta-se. E é verdade. O que temos vindo a assistir é realmente um boom que tem sido bom para todos, tem despertado no setor empresarial e não só, uma acutilância de visão para que as pessoas desenvolvam mais. Tem sido bom para todos, quem disser o contrário está a mentir. Mas também digo que é preciso sempre ter cuidado com essas coisas porque um dia em que as viagens low cost fraquejem, que os turistas arranjem outros mercados, temos que olhar bem para aquilo que estamos a fazer. O conselho que dou, e dou a mim próprio, é que a gente tenha cuidado a dar os passos, não entrar em euforias porque estamos num meio pequeno, não fazer coisas demasiado grandes para depois um dia nos virmos a arrepender. E esse arrependimento geralmente sai-nos bastante caro.

E a restauração estava preparada, quer em termos de qualidade, quer em termos de quantidade, para este novo nicho de turistas que invadiu, nomeadamente, S. Miguel?
Tenho estado dentro disso, fui presidente até uma certa data, da delegação da AREST nos Açores, e posso adiantar, como conhecedor do mercado, que em termos de qualidade temos dado passos muito qualitativos e quantitativos. Em termos de higiene e segurança alimentar, estamos todos no bom caminho. Em termos de prestação de serviços, ou seja, o empregado de mesa, precisamos de melhorar, com alguma urgência, esse tipo de atendimento porque a nós é que temos, praticamente, feito os nossos funcionários. As escolas profissionais funcionam mas sou apologista de que os profissionais dessas escolas, além de saírem com a escolaridade obrigatória e com o curso, o Governo Regional ou as pessoas ligadas à matéria, deviam fazer acordos com esses alunos para obriga-los, pelo menos durante dois anos, a trabalharem na formação profissional que tiraram. Isto porque conheço quem tenha tirado cursos profissionais de restauração só por causa da escolaridade obrigatória.

A Paparoca é uma marca sua, enquanto o Frango da Guia é franchising. Mas em termos de Paparoca, existe em Ponta Delgada e em que mais locais?
Temos em Vila Franca e esperamos em breve retomar a Ribeira Grande, porque temos instalações nossa na Ribeira Grande. A Ribeira Grande está-se a transformar, está a desenvolver, e temos todo o interesse em voltar para a Ribeira Grande com a Paparoca. Já fiz uma tentativa de ir para as ilhas mas temos uma dificuldade acrescida, pode ser que agora as coisas estejam um pouco melhores, talvez tentemos a breve trecho abordar novamente essa temática das ilhas como a Terceira, o Pico e o Faial.

Com que tenciona brindar a Ribeira Grande, a sua terra natal?
Há imensas coisas que me passam pela cabeça porque, acima de tudo, sou uma pessoa com visão empreendedora, tenho pena é de não ter o acompanhamento suficiente, ou que gostaria de ter, mas a Ribeira Grande tem estado a dar passos no bom sentido, olhar agora mais para o turismo não esquecendo a parte para os residentes como a parte desportiva, o surf. Existiu até um rapaz da Ribeira Seca que foi campeão regional de skate e pouca gente sabe disso. Sei que existem já vários trilhos pedestres e acho que devem continuar, o atual presidente está com a dinâmica bastante grande no sentido de elevar a Ribeira Grande a um patamar superior e eu comungo da ideia de que a Ribeira Grande é merecedora, tem um potencial enormíssimo desde logo com a Lagoa de Fogo, com as Caldeiras Velha e Nova, tem uma parte espetacular de mar com praias belíssimas, como as praias de Monte Verde e de Santa Bárbara. Depois, não muitos quilómetros dali, dá-se um saltinho ao Porto Formoso, outra praia excecional. Depois, temos gente maravilhosa em Rabo de Peixe e que está sempre pronta e vemos isso quando turistas param e perguntam alguma coisa as pessoas acedem logo, explicam da melhor maneira possível e estão sempre prontas a dar o seu contributo, por isso, acho que é congregar esforços para que a Ribeira Grande seja o maior e melhor ponto de desenvolvimento do turismo nos Açores.

O município da Ribeira Grande já o convidou para investir?
Já me fez um convite indiretamente. Mas eu espero, a breve trecho, estar com o presidente Alexandre Gaudêncio para conversar sobre vários temas, sobre a Ribeira Grande e lembrar-lhe para não se esquecer que existem ribeiragrandenses em várias partes do mundo e vários sítios, mesmo na ilha, que são potenciais e que congregando esforços são capazes de ajudar no desenvolvimento do concelho.

Como ribeiragrandense, se tivesse poder ou se pudesse influenciar de alguma forma, que decisões gostaria que fossem tomadas no imediato ou a médio prazo no concelho?
No imediato, e é de simples execução, era fazer um parque para desportos radicais. Depois, incentivar e ajudar, dentro do possível, os clubes que existem como o Atlético de S. Pedro, o Ribeirinha e até houve uma equipa de Santa Bárbara a reabrir, e haver ali uma congregação de atletas e pessoas para desviar a malta nova das drogas e outras coisas prejudiciais. A médio prazo, penso que teria de dinamizar e incentivar toda a gente da Ribeira Grande e das freguesias do concelho para levar para lá uma secretaria regional de agricultura e pescas. Estamos no meio da ilha, temos a Associação Agrícola, temos o maior porto de pescas, os melhores pescadores, bons agricultores, bons lavradores, acho que era uma mais-valia para a Ribeira Grande.

No momento em que está a ponderar apostar no desenvolvimento da marca Paparoca e da restauração onde está envolvido, isto deve-se também ao facto de ter consigo a família.
Sim, eu sempre quis ter a família junta. Sempre fui apologista de que a união faz a força e de que se estivermos juntos é melhor do que individualmente cada um a combater por si. Eu respeito a maneira de ver e de sentir dos outros tanto, é assim que eu e os meus irmãos estivemos juntos. Agora tenho um irmão comigo e tenho as minhas filhas e os genros também não todos mas alguns que estão a trabalhar comigo. Tenho quatro filhas e duas estão metidas no negócio, e dois genros também, não propriamente os maridos delas. Com exceção da mais velha, que está ligada ao design de comunicação, elas têm vindo paulatinamente a tomar conta do negócio. Embora cada uma com as suas características, eu vou transmitindo o que sei, o que tenho como aprendizagem pessoal, mas para ser empresário há uma coisa muito importante: um empresário é como um pianista, um bom pianista tem de saber tocar todas as teclas, assim como um empresário. Um pianista tem de saber as escalas todas no piano, um empresário tem de saber desde como se põe um projeto na Câmara para ser aprovado, como o banco pode facilitar a vida do empresário, como deve vender, como deve comprar, limpar, arrumar, orientar de forma a que essas teclas todas e todas as outras sejam todas bem tocadas para ter sucesso. Se isso não for assim, não há nenhum empresário que tenha sucesso. Acima de tudo, há uma tecla que se chama trabalho, e essa todos os dias tem de ser tocada.

Sente-se realizado?
Sinto-me orgulhoso pelo projeto todo que encetei na altura em que me dediquei a isso. Tenho comigo uma vaidade que se não fosse restauração, fosse outra coisa qualquer, tenho a certeza que vingava na mesma noutro negócio qualquer. Com a parte da restauração e da Paparoca já há algumas nuances de outro tipo de comércio, como um ou outro equipamento que já faz venda, como já estou também mais focado para ter alguma coisa no campo turístico como alojamento local e coisas dentro desse ramo. E somos capazes de conseguir ainda muito mais porque acho que temos de ter uma premissa de nunca baixar os braços nem atirar a toalha ao chão.

2017 marca, então, o seu regresso à Ribeira Grande?
Talvez. Já li vários escritores mas há um que teve uma particularidade sobre mim que é o Gandhi, e ele dizia uma coisa espetacular que era assim: não se preocupe com todas as situações ou problemas que tenham resolução. E eu acho que praticamente todos têm solução, há alguns que saem do nosso âmbito, não estão nas nossas mãos resolver. São os únicos que não têm solução.

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